Há um clichê recorrente que diz: dúvidas e perguntas “movem o mundo”. Ouso discordar. Quem sabe o que move o mundo possa ser não uma atitude e sim um sentimento? Passo longe de outro clichê: não, não falo de amor. Falo de medo. Medo. Medo mesmo. Talvez o medo seja a maior prova da humanidade nas pessoas, nos apavoramos: com tudo, com o mundo, atrocidades, mentiras, verdades… e são nesses momentos que há a afirmação inconsciente da humanidade individual e coletiva.
Um bom exemplo, além e ser o mais gasto, batido e nomeado do mundo, talvez por ser tão bom, é a Guerra do Vietnã. O fotojornalismo denunciou barbaridades do conflito pelos dois lados: houve um choque. Ruptura. Como conseguir voltar a comer minha pizza após ver mães chorando com os corpos de seus filhos nos braços, o soldado americano de semblante triste com a frase no capacete “War is hell”, “Guerra é o inferno”? Impossível. Olha só? Descobrindo humanidade onde antes havia indiferença.
Não levem a mal, o fotojornalismo mudou muito. Na verdade, o jornalismo é algo tão contemporâneo que se transforma juntamente com o mundo, ousaria até dizer que muda o mundo. Hoje é complicado ver esse “clique humanização”, pois há uma absurda exploração das fotografias do tipo “stoppagers”, ou seja, daquelas que chocam, captam o olhar do leitor de uma forma que é impossível continuar folheando a revista/jornal ou continuar rolando a página das mídias digitais, faz-se necessário parar e entender aquele texto não-verbal. Assim, o comum se tornou raro e o bárbaro se tornou comum. Como o clique poderia ter sobrevivido? Não culpo a nova geração.
Agora, o medo não para mais as pessoas: falta tempo para ter medo. Falta? Ou será que o nosso medo é meramente egoísta demais? Por que há tempo de se certificar três vezes de que a porta de casa está trancada e não para refletir sobre o futuro dos seres humanos nessa “humanidade desumana”, nas palavras de Renato Russo? Talvez seja egoísmo, ou talvez eu tenha me enganado: não é o medo que faz o mundo se mover.
O aconselhável a um jornalista é manter o ponto de vista ao longo do texto, defendendo-o. Julguem-me: “Prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. O que move o mundo, mais provavelmente, então deve ser a coragem. Coragem. Audácia.
O que marcou a Guerra do Vietnã foi a coragem dos fotojornalistas em publicar, expor aquelas imagens ao mundo. A bravura daqueles que saíram às ruas, inconformados com a frieza de uma guerra. Haja bravura para ser fotojornalista atualmente, captar todas as barbaridades, a dor, as perdas, a miséria, a luta e ainda ter seu trabalho criticado por apresentar “frieza demais”. O que querem de vocês? “Não é o mundo como está e sim as coisas como são”, já alertou Renato Russo, parece que não o ouviram ainda.
Abranjo mais: haja valentia para ser jornalista nos dias de hoje! Pouca remuneração, pouca valorização, riscos extremos − não apenas para jornalistas de guerra, no cotidiano, pode-se perder credibilidade muito facilmente, além e ser um campo extremamente competitivo. A profissão pode e é muitas vezes vista como uma via crucis, árdua, sem reconhecimento e… bem, a perda de espaço, influência e público das mídias impressas assustam, não só os que ingressam na carreira, mas também aqueles que já atuam nela.
Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha de S. Paulo, durante uma aula magna na Faculdade Cásper Líbero, em 26 de fevereiro, disse: “Sou um tipo de evangelista do Jornalismo”. Referia-se à sua opinião particular quanto ao desaparecimento da profissão no setor impresso. Fica claro, dessa forma, a confiança na “auto-renovação” daquilo com que trabalha, o que faz sentido. Jornais do século passado não se assemelham aos contemporâneos e, certamente, os nossos não poderão ser comparados aos futuros.
O mundo muda e o jornalismo o acompanha. Ou será que este o muda? Ou será uma mudança coletiva pela alteração de um contexto histórico para outro, assim, naturalmente, fluida? Será que, nem medo, nem coragem, o jornalismo muda o mundo?
Muitas perguntas? Calma, respira. Dá a mão para a tia, vai dar tudo certo.
Na mesma aula, Dávila disse algo que eu chamaria de “tom de cinza jornalístico”: um conceito que mostra a necessidade do jornalista em manter-se distante da notícia para buscar a objetividade, mas não tão longe, para não perder o toque de humanidade, não tratar as notícias com frieza. O tom de cinza jornalístico se aplica perfeitamente – obrigada, “Serginho” – para responder minha última pergunta: nem um, nem outro. Não é o jornalismo que muda o mundo, não é o medo, nem a coragem. Simplesmente é tudo, sendo, de alguma forma, nenhum dos três.
Representaria tudo muito bem com uma reação em cadeia: o jornalismo caça e denuncia, o medo provoca, a coragem faz as pessoas romperem com aquilo que as incomoda. A peça fundamental para o efeito são as pessoas. Enquanto houver público, haverá jornalismo. Haverá quem para saber o quê. E a sede de saber nunca morre, logo o jornalismo se eterniza e morre todos os dias. Morre para não se desatualizar e, por conseguir morrer, vive.
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