
Crédito: José Adorno
Para relembrar os 50 anos do Golpe Militar que castigou o Brasil com 21 anos de ditadura, a Faculdade Cásper Líbero realizou, durante a primeira semana de abril, o evento “50 anos do golpe”. Na segunda-feira, 31 de março, os convidados Audálio Dantas, Regina Helena Paiva Ramos e Dácio Nitrini abriram a Semana palestrando sobre a imprensa durante o regime militar.
A coragem da Cacilda Becker
A primeira a falar foi Regina Helena de Paiva Ramos, jornalista, escritora e ex-aluna da Faculdade. Trabalhando na Gazeta, Band e o jornal O São Paulo, ao mesmo tempo nos anos 70, ela comentou sobre sua experiência: “Os censores, a princípio, sentavam ao lado do redator. Quando este terminava a matéria, passava para o censor, que dizia: ‘Isso não pode, corta aqui, tira ali’. O São Paulo então começou a publicar salmos no lugar dos trechos censurados”.
A jornalista falou da resistência da classe teatral perante o regime, destacando o papel de Cacilda Becker: “Ela tinha uma coragem impressionante. Enfrentava policiais, DOPS, transformou seu apartamento num bunker de guerra quando a polícia sequestrou a Norma Bengell. Ela ia ao DOPS, botava o dedo no nariz daquele pessoal e ninguém tinha peito para prendê-la”. Regina falou ainda sobre como a repressão de certa forma estimulou a produção artística: “Quanto mais batiam, mais eles criavam”. E ainda fez questão de dizer: “Não tive medo. A gente nunca acha que vai acontecer algo de ruim conosco”.
Vlado foi o primeiro a não ser sepultado às escondidas
Em seguida falou o jornalista Audálio Dantas. Quando aconteceu o golpe, em 1964, ele trabalhava na revista O Cruzeiro, que havia realizado a cobertura da “Marcha da família com Deus pela Liberdade”. Audálio foi encarregado de escrever sobre a repercussão do golpe no dia 1° de abril; sobre isso, ele comentou: “Eu sabia que seria inútil [a cobertura do dia 01/04], assim como meus companheiros, porque todos os grandes jornais apoiaram e conspiraram para o golpe. O Cruzeiro fazia parte da rede dos Diários e Emissoras Associadas, e o que a revista lançou foi mesmo uma louvação ao golpe”.
Em 1975, Audálio tornou-se presidente do Sindicato dos Jornalistas. Num momento em que o sindicato cresceu e se tornou um interlocutor do debate público. Quanto a isso, ele afirma que o movimento de fortalecimento do Sindicato se deu “de baixo para cima” e acrescentou: “Eram apontados [os movimentos de fortalecimento sindical] como uma tentativa de formar uma cabeça para a infiltração na imprensa brasileira. Essa foi a visão da ditadura. Para combater isso prenderam e sequestraram onze jornalistas paulistas, o décimo segundo foi Vladimir Herzog”.
Audálio, indignado com a morte de Herzog e sua pouca repercussão, usou-a para combater a ditadura: “Esquecem que sem o Sindicato não haveriam denunciado o assassinato. Essa morte foi denunciada no dia seguinte, com um manifesto lançado pelo Sindicato dos Jornalistas, afirmando que ‘A autoridade é responsável pela vida daquele que tem sob sua guarda’. Convidamos a população de São Paulo para o sepultamento. Vlado foi a primeira vítima a não ser sepultada em silêncio”. Não só o sepultamento gerou todo movimento que representava oposição à ditadura, mas também abriu espaço para denúncias nos jornais. Estes, como disse Audálio, sofriam duas censuras: a do regime militar e a dos patrões que apoiavam a ditadura. O assassinato de Herzog evidenciou o que muitos se recusavam a ver: a violência estava naqueles que dominavam e detinham o poder, e não na sociedade ou nos grupos de resistência.
Fechando essa mesa do primeiro dia, Dácio Nitrini, jornalista, diretor de jornalismo da TV Gazeta, da Fundação Cásper Líbero e conselheiro do Instituto Vladimir Herzog. Ele lembrou que durante a ditadura trabalhou na imprensa alternativa. Entre as histórias que contou sobre a imprensa independente que tentava mostrar o que os outros jornais escondiam ou omitiam, Dácio falou sobre sua vivência no jornal Ex-. Mostrou diversos exemplares da publicação, recém-lançada pela Imprensa Oficial e o Instituto Vladimir Herzog numa edição fac-similar. Uma das capas mostradas por Nitrini e que chamou a atenção da plateia foi a edição que continha uma imagem do presidente americano da época, Richard Nixon, vestido como presidiário, fazendo alusão ao escândalo de Watergate. Essa capa motivou a prisão do jornalista Dácio Nitrini por alguns dias. A trajetória do jornal teve fim em sua décima sétima edição. A penúltima havia sido sobre o assassinato de Vladimir Herzog, em que “mostraram tudo o que a grande imprensa não podia”. Essa edição corajosa provocou a invasão da redação a ser invadida e o último número da EX- foi apreendido, além do ultimato dado pelos militares.
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